Reciclagem

O mundo não é nenhum mar de rosas. É um lugar sujo, feio e cruel. Não importa quão durão você seja. Um dia, a vida vai te pegar de jeito. Um dia, a vida vai enfiar a porrada na sua cara. E você vai cair bonito no chão, exausto, sem esperança.   O negócio não […]

Dissidências

A vida é feita de ciclos, já diriam os orientais. E chegam momentos de rompermos ciclos antigos para iniciar novos.

Esses momentos costumam ser meio dolorosos. Talvez porque eles nos remetam a outros momentos de rompimento, principalmente aqueles mais tristes nos quais a decisão não partiu da gente. Quando parte da gente, é mais fácil.

Separações, filhos saindo de casa, falecimentos, mudanças de cidade, de emprego, de estilo de vida… Tudo gera um sentimento de vazio, o vazio anteriormente preenchido por algo. Algo, esse, que talvez já não nos represente mais daquela mesma maneira, clamando, assim, por mudanças.

É como a árvore, que floresce, frutifica, deixa cair frutos… E os frutos espalham sementes que vão gerar novas árvores.

Todo mundo já deve ter ouvido essa analogia. Mas o que raramente passa pela nossa cabeça é que tudo o que existe hoje no mundo é resultado dessa mesma história. A situação atual sempre descende das situações anteriores. O status quo de hoje foi a dissidência de ontem.

Os pais de hoje em dia foram os filhos do passado que saíram das casas dos pais para formar novas famílias. Os colonizadores de um país são os filhos de uma terra que decidiram ir viver em outra, divergindo-se de suas origens.

Alguma bela árvore que talvez habite seu local de trabalho ou estudo também já foi uma pequena semente ou uma pequena muda um dia. A empresa em que você trabalha hoje talvez tenha sido criada por ex-funcionários de outra empresa, que talvez tenham saído desta por não concordarem com tudo o que acontecesse por lá.

Alguns se enraízam em suas origens, mas já imaginou se todos o fizessem? Seu amigo não teria vindo morar na mesma cidade que você, seu local de trabalho atual talvez não existisse, seu próprio trabalho e sua área de atuação talvez não existissem.

Tendemos a divergir de nossas origens, em maior ou menor grau, num processo às vezes tranquilo, às vezes doloroso, porém necessário, que promove a continuidade do mundo.

Crescei-vos e multiplicai-vos, já nos disse o Mestre. Assim a vida segue seu caminho, em escala exponencial, não nos perguntando muito se a gente está tranquilo com isso ou não. Simplesmente, acontece.

Protagonismo no aprendizado

Alguns alunos têm a postura de querer aprender o conteúdo, entender os porquês e se virarem sozinhos. Quando erram um exercício, vêm querer saber o porquê e entender o que devem fazer para acertar futuramente.

Alguns alunos têm a postura de querer decorar quais são as respostas certas para poder repeti-las nas provas. Quando erram um exercício, às vezes vêm pedir para o professor simplesmente aumentar a nota. Às vezes, vêm querer saber qual resposta seria a certa para poderem decorar de novo e acertar futuramente.

O primeiro tipo mencionado está mais focado no processo para se chegar a um resultado. O segundo tipo está mais focado em entregar “o que o professor mandou”. Assim, “o professor vai me passar de ano”. Assim, “meu chefe vai me subir de emprego”, “meus pais vão ficar felizes” etc.

O primeiro tipo está sendo protagonista de sua aprendizagem. Ele espera poder caminhar sozinho, sendo capaz de dar respostas e de formular perguntas. O segundo tipo está sendo coadjuvante. Ele espera que alguém lhe diga o que fazer, para que ele apenas faça, sem questionar.

A primeira postura obviamente leva a um aprendizado e autonomia muito maiores. Então, por que muitos alunos agem como coadjuvantes?

Há muitos possíveis motivos. Pode ser falta de engajamento, desmotivação… Pode ser apenas uma questão de não se identificar com o estilo da aula, algo que pode ser simplesmente ajustado. Ou pode ser por motivos mais sérios, como traumas de infância ou sociais. Nesses casos, a coisa vem de muito antes de o aluno ter entrado na escola. É uma postura de vida.

Há pessoas que sempre foram incentivadas pelos pais e/ou pela sociedade a serem protagonistas, responsáveis, terem voz ativa. E há pessoas que não receberam esse incentivo, ou receberam o incentivo oposto: “não enche o saco”, “cala a boca e vai trabalhar”, “eu é que mando aqui” etc.

Não é nenhuma surpresa ou novidade. A TV e a estrutura social ensinam todos os dias à população que ela não decide nada, pois tudo já virá “pronto para consumo”. A ordem é “trabalha aí e ganha o seu”, para poder comer umas migalhas dos ricos. Ou para consumir produtos especificamente criados para as camadas inferiores para mantê-las sob controle. Por que você acha que existem salgadinhos cheios de toxinas vendidos a preços baixíssimos, programas altamente sensacionalistas na TV aberta, empréstimos a juros altíssimos com parcelas baixíssimas e coisas parecidas?

Você acha que um aluno que tenha tido uma história repleta dessas coisas vai conseguir simplesmente “fazer diferente”, “ir lá e ter outra atitude”?

Imagine uma sociedade inteira ensinando ao cidadão que ele não é um cidadão. Quantos bloqueios mentais essa pessoa já acumulou que precisariam ser desfeitos? Quantos “participem mais da aula!” um professor terá que dizer até essa pessoa acreditar e começar a agir assim?

Eu não tenho uma solução para isso. Mas, se existe um caminho para a mudança, esse caminho passa por muito além da escola. Para que cada pessoa possa estar no centro de sua própria vida, vamos precisar repensar indivíduo, família, vizinhança, meios de comunicação, saúde, exemplos, referências, objetivos de vida… A sala de aula é apenas um reflexo do mundão lá de fora e do mundinho de dentro de cada um.

Gerações

Tem muita discussão sobre a geração atual das pessoas por volta dos 18 anos. Embora tenha hoje 31, portanto pertença a uma geração mais velha, sinto que eu me encaixo um pouco nessa de ficar buscando fazer sempre o que gosta, não ter muita tolerância para emprego chato etc.

Eu cresci num mundo tecnológico, tive contato com isso um pouco antes da maioria das pessoas. Talvez por isso mesmo eu tenha enjoado um pouco antes da maioria das pessoas, e por isso hoje eu não tenha muita vontade de ter WhatsApp, Facebook etc.

Uma vez vi uma pessoa próxima que tem uns 60 anos maravilhada mandando um vídeo ou foto pelo WhatsApp. Achei interessante a reação dela. Refleti um pouco e lembrei que eu fiz isso pela primeira vez em 1999, no ICQ, e, na época, eu fiquei maravilhado, também.

Muita gente compartilha vídeos pelo YouTube, por exemplo de jogos, e acha isso fenomenal. Outro dia eu lembrei que, em 90 e qualquer coisa, eu gravava fitas VHS dos jogos que eu alugava na locadora para levar no dia seguinte para um amigo meu ver e a gente ficar discutindo.

Provavelmente seja por isso que eu não me surpreenda tanto com os avanços tecnológicos. Já tive minha fase e meio que passou, principalmente porque eu andei percebendo outros problemas do mundo bem mais sérios e vendo que eles não estão nada resolvidos: questões políticas, sociais, ambientais, psicológicas… São questões muito mais antigas e complicadas do que as tecnológicas.

Sinto que a história vive se repetindo, e que as discussões, no fundo, são sempre as mesmas. O tempo passa e o ser humano sempre volta às mesmas questões fundamentais. Um grupo fica tentando mostrar que o caminho certo é X, o outro fala que é Y, o grupo A discute com o grupo B, ambos querem ter razão, ninguém cede, até que a coisa vai ficando feia e um começa a falar mal do outro pelas costas ou eles se enfrentam de maneira violenta, guerras surgem etc.

Acho que o mundo não precisa ser mais rígido ou menos rígido, as gerações não precisam ser mais de esquerda ou mais de direita, mais independentes ou não, mais exigentes ou não. Cada um é como é, cada época tem suas características e a gente se ilude achando que tem muito controle sobre isso. Cada um tem controle sobre si mesmo, e olhe lá. A gente pode educar os filhos de uma ou de outra maneira, e olhe lá.

O que é melhor para o mundo? Ninguém sabe direito. Cada um tem sua verdade. Sempre tenho chegado à mesma conclusão: cada um tem a sua verdade, que construiu com o que viu acontecer em sua própria vida. A verdade de cada um serve para si e para algumas outras pessoas. Consenso é muito difícil de alcançar.

E as gerações novas vivem repetindo os erros das anteriores… Os filhos querem se rebelar, querem fazer tudo diferente do que os pais fizeram, mas no fim só dão nomes diferentes para as mesmas coisas, negam o conhecimento vindo pronto dos pais e vão atrás de tirarem suas próprias conclusões. Acham que estão seguindo caminhos totalmente diferentes, e, no fim, dá quase na mesma, e vão concluir as mesmas coisas que os pais já sabiam.

Antes eu achava que esse processo era meio tosco, ineficiente. Mas atualmente tenho achado que simplesmente é assim que funciona. Muitas coisas a gente só aprende dando a cara a tapa e se ferrando. Mesmo que alguém já tenha se ferrado antes, às vezes a gente prefere passar por aquilo de novo, a gente quer ter nossa própria experiência para aprender com ela. Talvez viver a própria vida seja exatamente isso.

É claro que há o conhecimento acumulado pela humanidade e há avanços, sim. Antigamente, mostravam imagens na TV de trator destruindo floresta e chamando aquilo de progresso; deficientes físicos e mentais eram trancados em casa e escondidos da sociedade. Hoje, é diferente. Muita coisa melhora, sim. Às vezes, mais devagar do que a gente gostaria.

Problemas e soluções

Na última sexta-feira, 30/06/2017, eu vi… Eu vi uma luz no fim do túnel. Chamava-se TCC.

Mas não o TCC famoso, o famigerado Trabalho de Conclusão de Curso; foi o Tiny C Compiler. Pela primeira vez na vida, eu vi um compilador para a linguagem C pequeno, rápido e leve. Ele ainda tem a funcionalidade de executar código-fonte diretamente, como um interpretador de scripts, algo bem interessante.

Outro ponto extremamente positivo é que ele funciona no Windows. Aliás, ele simplesmente funciona: basta baixar o zip, extrair, rodar tcc.exe e pronto. Nada de MinGW, MSYS, cygwin e outras tranqueiras complicadas de instalar e configurar. O Windows é um SO explicitamente negligenciado por boa parte da comunidade de desenvolvimento de software. Dizem que a solução é criar máquina virtual – e eu sugiro VirtualBox com Linux Mint XFCE. É, após baixar alguns gigabytes e instalar tudo, realmente funciona bem.

Já o TCC tem apenas 389KB zipado e 1,53MB extraído. Como eu disse, nunca tinha visto um compilador tão pequeno. Ele também é quase 9 vezes mais rápido do que o GCC e produz código de saída super pequeno, também. Um ola-mundo.exe gerado pelo Visual Studio tem 8,5KB. Já o mesmo programa compilado com o TCC tem 1,5KB – mesmo tamanho da versão em Assembly (testei usando o MASM32 SDK).

Também experimentei fazer um Olá, Mundo em Go e deu 1,6MB. Em Rust, 3,6MB. Em JavaScript, usando NodeJS e a plataforma de distribuição Electron para gerar um executável distribuível: 127MB.

Pois é… Estamos vivendo a era do hardware barato. E de seu desperdício.

  • Para que usar apenas 1,5KB se a gente pode fazer em 1,6MB, 3,6MB ou 127MB e o hardware aguenta?
  • Por que uma tarefa rápida como compilar um programa trivial deveria rodar em 5 milissegundos se a gente pode fazê-lo precisar de 90?
  • Para que armazenar pequenos arquivos localmente se a gente pode criar bancos de dados NoSQL em nuvem a torto e a direito e gastar alguns Mbps de conexão de internet com isso?

Fera mesmo eram os programadores de jogos dos consoles antigos… Aqueles, sim, tiravam leite de pedra. Não havia outra opção: hardware extremamente limitado, programação só em Assembly. Ou fazia assim, ou não fazia.

O Atari, por exemplo, tinha 128 bytes de memória. Não são megabytes nem kilobytes, são BYTES! E dava certo. Não sei como, mas dava! Provavelmente, cada bit era muito bem aproveitado.

Já a gente aqui, em 2017, vai seguindo a vida, gastando mais de 1MB e mais de 270 milhões de ciclos de CPU apenas para dizer oi para o mundo… E achando isso normal.

Isso NÃO é normal. Isso está muito errado. As pessoas estão muito longe de conhecer o verdadeiro poder de suas máquinas. Estamos apenas comendo migalhas perto do que realmente poderíamos fazer.

Ao questionar esse assunto, às vezes a explicação que vem como resposta é que precisamos resolver os problemas grandes. E, que, para esses problemas, as ferramentas que temos funcionam bem. Ou seja, o importante é que o GCC compile código gigante em um tempo longo (em vez de muito longo); o importante é que um programa gigante em Go ou Rust fique com centenas de megabytes (em vez de vários gigabytes). Em outras palavras: “temos que sacrificar as pequenas aplicações em prol das grandes aplicações, que são as que realmente importam”. Engraçado… Onde é que já ouvimos esse discurso antes?

Eu tenho uma visão diferente. Eu acredito que todos podem ser bem atendidos. Não existe essa tal “decisão difícil” entre os grandes e os pequenos problemas. O que existe é para onde queremos direcionar nossos esforços. Os grandes problemas já estão sendo resolvidos por gente capacitada. E os pequenos? Também estão? Bom, o TCC está aí para nos ajudar a mudar esse cenário.

Vejo um futuro em que, tanto quanto já temos acesso a programas grandes e pesados para resolver problemas grandes e pesados, teremos acesso a programas pequenos e rápidos para resolver problemas pequenos e rápidos. E, assim, todos serão mais bem atendidos nesse mundão de Deus, cada um dentro da sua necessidade.

Uma horta de folhas

Cultura

Cultura… Quantos significados diferentes tem essa palavra! Possivelmente, você já tenha pensado na relação entre cultura no sentido de “cultura de um povo” e cultura no sentido de “cultivo de alimentos” (como cultura de brócolis, cultura de alface etc.).

A cultura de um povo funciona da mesma maneira que a agricultura: você produz, você consome, você colhe o que planta.

Muitas pessoas se enxergam como alheias à cultura. Elas acham que estão fora do sistema.

Porém, quem é que está de fato fora do sistema? Ninguém. Todo mundo produz alguma coisa, todo mundo consome alguma coisa. Um simples parágrafo que você escrever no Facebook será lido por muitas pessoas e influenciará, direta ou indiretamente, as ações dessas pessoas.

Tudo o que se faz tem consequências. Se você estudar mais hoje, terá mais conhecimento amanhã. Se você tratar sua família melhor hoje, terá uma relação melhor com ela amanhã.

Todo mundo é responsável pelo que faz. Somos vítimas ou protagonistas? Vi essa ideia numa palestra de Érica Briones, no TDC São Paulo 2015. Você pode enxergar uma relação entre você e tudo o que o cerca e ter o poder de mudar as coisas, ou considerar-se vítima de tudo e achar que não pode mudar nada. Dos dois jeitos, você estará certo.

A cultura funciona assim, também. Tudo o que você enxerga nas ruas, nas aulas, na televisão e nas empresas é resultado daquilo que cultivamos, tanto no presente como no passado (ambiguidade oportuna do verbo!). Você pode viver de qualquer jeito, ou pode ser seletivo e abandonar o que é ruim e potencializar o que é bom. A escolha é sua! Aliás, a escolha é nossa!

Muito próximos e muito distantes

Quando eu era pequeno, meu passatempo mais maravilhoso era jogar videogame.
Para meus pais, eram apenas jogos. Para mim, eram sonhos.
Era uma viagem interdimensional. Era o passaporte para o mundo das ideias.
Era um mergulho profundo em um espaço lógico e lúdico.

Finda cada viagem, um novo André seguia o caminho de volta.
Um André mais vivido, mais preparado.
Com mais sonhos, alegrias, horizontes.

Um dia, um computador chegou até minha casa.
Era como um videogame, mas eu podia modificá-lo, instalar novas coisas.
E mais um universo se abriu para mim!
Aquelas cores, caracteres, sons… Atalhos de teclado…

Naquela época, um computador te levava a outros lugares.
Um computador não te dava respostas, te dava perguntas.
A sua imaginação preenchia as lacunas.

Um dia, ensinaram-me a programar, usando QBasic.
Nesse dia, um novo universo se abriu para mim.
Os caracteres, os sons, as cores… Agora, eu mesmo podia fazer tudo acontecer.

Agora, eu podia criar o que quisesse. Agora, eu começava a contar a estória.
Agora, eu era o narrador e o personagem principal.

Assim, eu encontrei minha profissão.

Penso nos computadores até a década de 90 como similares aos livros infantis. A história que eles contavam vinha pela metade; era você que completava a história, e fazia sua própria história. Era uma via de mão dupla.

Talvez seja isso que tenha me fascinado na Informática. Ela sempre foi, para mim, um mundo novo a ser descoberto.

E, depois, vieram muitas outras coisas: jogos por modem, internet, e-mail, ICQ… Redes sociais, MSN, Skype… (imagine, conversar com qualquer pessoa do mundo por voz e vídeo, sem precisar pagar por isso!)

Depois, vieram outros jogos, vieram aplicativos pela web como Google Docs… E, mais recentemente, veio a nuvem, o Dropbox, o Google Drive, o GitHub…

Um dia, entraram em cena os smartphones.

E, então, por algum motivo, eu não quis mais brincar.

Por algum motivo, senti que a brincadeira tinha ido longe demais. Por algum motivo, senti que as soluções começaram a surgir antes dos problemas. Por algum motivo, senti a presença de caroço nesse angu, e não o quis mais no meu almoço.

Era como se alguma coisa ruim tivesse acontecido no cenário tecnológico mundial. Alguns fantasmas começaram a assombrar o que antes parecia belo. Alguns interesses começaram a sobrepujar o que era simples. A complicação tomou conta do negócio.

De repente, toda aquela promessa de conexão entre as pessoas começou a ser descumprida. De repente, todas aquelas possibilidades maravilhosas começaram a ser esquecidas. De repente, uma enxurrada de novas manias começou a dominar as pessoas, tornando-as escravas. De repente, o sistema não ficava mais da tela para dentro, e, sim, da tela para fora. De repente, o programa começou a programar o usuário e o programador.

Alguma coisa triste se tornou o padrão. O excesso de padrões tornou a coisa triste. A coisa se entristeceu de maneira padronizada. Os fenômenos se tornaram epidêmicos, as opiniões se uniformizaram, as individualidades se apagaram. As minorias se coletivizaram, os coletivos se venderam, os robôs começaram a agir como pessoas e as pessoas começaram a agir como robôs.

Algo muito esquisito está acontecendo com os usuários da Informática, que hoje são quase todas as pessoas. As pessoas estão buscando o caminho, a verdade e a vida em pequenas caixas eletrônicas, cada vez menores e mais cansativas para a vista. As pessoas estão clicando em botões cada vez menores, escrevendo em espaços cada vez menores. As pessoas estão vivendo vidas cada vez mais virtuais.

As pessoas estão buscando a felicidade fora do endereço 127.0.0.1. As pessoas estão buscando o sucesso em modelos econômicos e administrativos que nem compreendem direito. As pessoas estão repetindo palavras cujo significado nem conhecem.

As pessoas estão falando coisas demais, estão dando opiniões demais, estão fingindo que entendem coisas que não entendem. Estão querendo ficar bem na foto, sem nem ter ficado bem no fato.

O que houve com a Informática? O que houve com as pessoas? O que houve com o mundo?

Cadê aquela inocência dos caracterezinhos coloridos em baixa resolução, que se juntavam àqueles sonzinhos simples de ondas quadradas, fazendo um esforço enorme para causar boa impressão? Cadê aqueles sitezinhos em HTML puro, todos em branco e preto, cheios de informações extremamente concisas e interessantes? Cadê aqueles joguinhos criativos que aproveitavam ao máximo aqueles 640KB de memória, proporcionando viagens fantásticas ao jogador?

Tudo parece estar tecnicamente fácil hoje em dia, mas as pessoas não parecem ter sido preparadas para isso. Elas acham que podem tudo, que devem fazer de tudo. Só que, quando pode tudo, nada vale; quando tudo é feito, nada é fato. Perde-se em relevância, falta critério, decência, limite.

Acorda, mundo! Nem tudo é interessante, nem tudo vale a pena, nem tudo é aceitável, nem tudo é bom.

Estamos vivendo uma crise de relevância no mundo. Estamos num vazio moral. Estamos sem saber direito por que acordar de manhã e dormir à noite. Estamos sofrendo de depressão. Fazemos de tudo, mas não sabemos por quê ou por quem, nem o que realmente deveria ser feito.

Estamos muito próximos de mudanças muito distantes.

Generalidades

Inovação é uma das palavras da vez. Sabe o que isso significa? Significa que, agora, tudo é inovação, qualquer coisa é inovação. Afinal, ninguém quer ser considerado não-inovador, retrógrado, obsoleto.

O mesmo ocorre com a expressão em inglês full-stack developer. Sabe o que é um full-stack developer? Se você for da área de Informática, talvez saiba: um full-stack developer é um desenvolvedor de software capaz de trabalhar com desde o software que roda nos servidores (lidando com Java, Ruby, Python, PHP etc.) até o software que roda nos clientes (lidando com HTML, CSS e JavaScript).

É engraçado, porque, quando eu era mais novo, as pessoas que sabiam mexer com um pouco de tudo eram chamadas de outros nomes; eu me lembro da palavra generalista. Mas tinha uma diferença: ninguém se tornava melhor que os outros por ser generalista. Então, era uma coisa simples, um título sem nenhum juízo de valor, algo como você usar uma camiseta azul e o seu amiguinho usar uma camiseta verde.

Mas parece que as coisas mudaram no mundo… Parece que, hoje em dia, cada vez mais as pessoas querem ter títulos. E não são nem títulos acadêmicos, conquistados com muito suor; são títulos que as pessoas dão para si mesmas, tornando-se pessoas autointituladas.

Num mundo em que todos os desenvolvedores são full-stack developers, quem é que quer ser um desenvolvedor de meia-tigela? Num mundo em que todas as empresas são inovadoras, quem é que quer ser retrógrado?

Isso tudo me lembra do que o Kent Beck disse, no livro de TDD. Ele disse que aprendeu o seguinte: o sucesso de um nome novo depende muito de que o contrário dele seja negativo. Então, a programação estruturada fez bastante sucesso em parte porque ninguém queria ser desestruturado. Aí, ele escolheu o nome Test-Driven Development (Desenvolvimento Guiado por Testes), pois todo mundo iria querer ser guiado por alguma coisa.

Talvez, pior ainda do que ser meia-tigela ou retrógrado seja não ter título nenhum. Talvez, se você for apenas um desenvolvedor, ou apenas uma empresa (e não uma startup nem nada parecido), você esteja completamente fora de moda. Com isso, talvez você esteja automaticamente fora do mercado, não importando se você faça bem o seu trabalho ou não, não importando se você trate bem seus funcionários ou não. Aliás, tratar bem os funcionários só faz sentido se você puder dar um nome pomposo para isso e colocar no seu site para poder ganhar uns clientes, não é mesmo?

Pensando bem, talvez isso tudo não seja coisa de hoje em dia. Talvez seja apenas aquela retrógrada ideia de manter as aparências, uma coisa tão velha quanto o mundo. Talvez faça parte do ser humano… Se ele quiser que faça.

Vapor de conteúdo

Para quem não conhece, Steam é uma plataforma de compra de jogos para computador pela internet. É bem antiga, deve ter mais de 10 anos, e tornou-se referência no assunto. Eu diria que todos os jogos mais famosos (e também os menos famosos) estão à venda no Steam.

Ou seja, o Steam serve para jogar, certo? Jogar é sua funcionalidade mais importante; sem ela, todo o resto não faria sentido nenhum. Hoje, ao entrar nele para jogar um jogo que baixei ontem, percebi uma coisa bem interessante. Observe a imagem acima e responda: onde está a opção de jogar?

Fora a propaganda pop-up que eu não incluí na foto, temos uma mensagem grandona dizendo para eu proteger minha conta, temos a aba LOJA como principal… Também temos opções de BIBLIOTECA, COMUNIDADE e o meu usuário. Temos ADICIONAR JOGO, VER LISTA DE AMIGOS, leve-me à loja, Baixar o aplicativo… Temos a incrível Nova insígnia da comunidade…

Se você olhar com muita atenção, verá um pequeno item de menu Jogos lá no alto, ao lado de Ajuda. Além disso, descobri que também é possível ver os jogos clicando em BIBLIOTECA. Nada muito intuitivo.

Isso representa bem o que a sociedade está nos dizendo hoje: compre muito, socialize um monte, conte tudo para todo mundo, cuide bem da forma… E esqueça o conteúdo.

Você quer viver assim?