Alguns alunos têm a postura de querer aprender o conteúdo, entender os porquês e se virarem sozinhos. Quando erram um exercício, vêm querer saber o porquê e entender o que devem fazer para acertar futuramente.

Alguns alunos têm a postura de querer decorar quais são as respostas certas para poder repeti-las nas provas. Quando erram um exercício, às vezes vêm pedir para o professor simplesmente aumentar a nota. Às vezes, vêm querer saber qual resposta seria a certa para poderem decorar de novo e acertar futuramente.

O primeiro tipo mencionado está mais focado no processo para se chegar a um resultado. O segundo tipo está mais focado em entregar “o que o professor mandou”. Assim, “o professor vai me passar de ano”. Assim, “meu chefe vai me subir de emprego”, “meus pais vão ficar felizes” etc.

O primeiro tipo está sendo protagonista de sua aprendizagem. Ele espera poder caminhar sozinho, sendo capaz de dar respostas e de formular perguntas. O segundo tipo está sendo coadjuvante. Ele espera que alguém lhe diga o que fazer, para que ele apenas faça, sem questionar.

A primeira postura obviamente leva a um aprendizado e autonomia muito maiores. Então, por que muitos alunos agem como coadjuvantes?

Há muitos possíveis motivos. Pode ser falta de engajamento, desmotivação… Pode ser apenas uma questão de não se identificar com o estilo da aula, algo que pode ser simplesmente ajustado. Ou pode ser por motivos mais sérios, como traumas de infância ou sociais. Nesses casos, a coisa vem de muito antes de o aluno ter entrado na escola. É uma postura de vida.

Há pessoas que sempre foram incentivadas pelos pais e/ou pela sociedade a serem protagonistas, responsáveis, terem voz ativa. E há pessoas que não receberam esse incentivo, ou receberam o incentivo oposto: “não enche o saco”, “cala a boca e vai trabalhar”, “eu é que mando aqui” etc.

Não é nenhuma surpresa ou novidade. A TV e a estrutura social ensinam todos os dias à população que ela não decide nada, pois tudo já virá “pronto para consumo”. A ordem é “trabalha aí e ganha o seu”, para poder comer umas migalhas dos ricos. Ou para consumir produtos especificamente criados para as camadas inferiores para mantê-las sob controle. Por que você acha que existem salgadinhos cheios de toxinas vendidos a preços baixíssimos, programas altamente sensacionalistas na TV aberta, empréstimos a juros altíssimos com parcelas baixíssimas e coisas parecidas?

Você acha que um aluno que tenha tido uma história repleta dessas coisas vai conseguir simplesmente “fazer diferente”, “ir lá e ter outra atitude”?

Imagine uma sociedade inteira ensinando ao cidadão que ele não é um cidadão. Quantos bloqueios mentais essa pessoa já acumulou que precisariam ser desfeitos? Quantos “participem mais da aula!” um professor terá que dizer até essa pessoa acreditar e começar a agir assim?

Eu não tenho uma solução para isso. Mas, se existe um caminho para a mudança, esse caminho passa por muito além da escola. Para que cada pessoa possa estar no centro de sua própria vida, vamos precisar repensar indivíduo, família, vizinhança, meios de comunicação, saúde, exemplos, referências, objetivos de vida… A sala de aula é apenas um reflexo do mundão lá de fora e do mundinho de dentro de cada um.

Um comentário sobre “Protagonismo no aprendizado

  1. Olá André. gostei da sua reflexão. O que eu acrescentaria aqui é a necessidade, de nós educadores e educadoras, termos essa clareza que você expressa no texto. Esse fator é fundamental para que não exista comentários que vemos todos os dias como “Nossa aquele aluno é muito vagabundo”. Creio que com uma postura de mais afeto poderemos fazer os alunos do grupo 2 refletirem sobre sua postura e ver se ela os ajuda em alguma coisa. Parabéns pelo texto.

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