Discurso de formatura 2016

O vídeo acima é uma gravação do meu discurso de patrono para os formandos da turma TADS 2013. Agradeço aos alunos pela homenagem e ao IFSP Campinas pela oportunidade de ser professor!

Abaixo, a transcrição do discurso.

Caros alunos, servidores, colegas, amigos, boa noite! Quero começar agradecendo o convite para ser patrono da turma de vocês, que me deixou muito feliz!

Eu cheguei aqui pouco depois de vocês, em março de 2014. Comecei dando aula para vocês, junto com o Prof. Sovat, de LP2 e Sistemas Operacionais. Eu me lembro daquelas provas de C# de encontrar o erro no código e dos dojôs para implementar o jogo da vida…

Vocês foram os primeiros, os corajosos… Vieram desbravar as disciplinas, que ainda estavam sendo formatadas. Sei de momentos em que a gente acertou, e de outros em que a gente errou. Ser professor, como qualquer profissão, é difícil. Você junta 15 ou mais seres humanos em uma sala, põe todo mundo para trabalhar junto e tem que dar certo, cada um com uma ideia, um anseio, uma história de vida… Muito de ser professor é lidar com pessoas. Essa parte, às vezes, é bem difícil, e, certamente, é uma das melhores partes de ser professor. “Você nunca sabe que resultados virão da sua ação. Mas, se você não fizer nada, não existirão resultados”, já dizia um senhor chamado Mahatma Gandhi.

Vocês estão se formando num curso de tecnologia. Vocês estão saindo daqui sabendo programar computador, fazer aplicativo, fazer site, mexer com Arduino, mexer com Android… Vocês vão ser muito valorizados no mercado de trabalho. Vocês estão mais ou menos como os artistas na época do Renascimento, ou como os agrônomos na época do Ciclo do Café. Vocês estão na moda. Vocês estão vivendo a época de Steve Jobs (da Apple), Mark Zuckerberg (do Facebook), Linus Torvalds (do Linux), Shigeru Miyamoto (da Nintendo) e tantos outros.

A sugestão que eu dou é: aproveitem bem, porque isso não vai ser sempre assim! Daqui a uns 10 anos, pode ser que “manjar dos paranauê de computador” não seja uma grande coisa. Pode ser que, daqui a uns 20 anos, ter uma empresa de tecnologia não seja um negócio muito lucrativo. Isso já aconteceu com muitas áreas, e também pode acontecer com a nossa, apesar de a gente não ouvir muito isso por aí quando falam de Informática.

Pensando em trabalho, eu fico imaginando, por exemplo, a história dos imigrantes que vieram para o Brasil. Viajaram de navio durante semanas, para uma terra desconhecida, percorrendo milhares de quilômetros… Vieram para cá sem nada, às vezes fugidos da guerra, tendo que se unir em comunidades, tendo que se ajudar para sobreviver, tendo que conviver em grupo, trabalhar, se virar, se superar, improvisar… Tiveram que aprender a plantar, construir, consertar… Certamente, essas dificuldades geraram aprendizados muito grandes para essas pessoas.

Recentemente, teve um pessoal que disse que nós devemos dar mais valor a indivíduos e interações do que a processos e ferramentas (procurem depois no Google: Manifesto Ágil). Eu tenho certeza de que a as técnicas de plantio e a enxada (os processos e as ferramentas) foram muito importantes para os agricultores daquela época. Porém, tenho certeza de que sua grande força e seu grande legado foram os valores: o valor do trabalho, da honestidade, da tolerância, da humildade, da paciência. Eu não sei se os computadores vão continuar recebendo tanta importância no futuro como recebem hoje (eu acho que não, mas isso é só um palpite). Agora, eu posso afirmar para vocês, com toda a certeza, que trabalho, honestidade, tolerância, humildade, paciência e todos os outros valores vão ser sempre muito importantes para a humanidade e para o mundo.

Uma escola ensina a todos, não só aos alunos. E o IFSP Campinas me ensinou muitas coisas, pelas quais eu sou muito grato. Vou compartilhar três delas com vocês: a primeira é sobre aprendizado, a segunda é sobre idealismo e a terceira é sobre divergência.

Aprendizado. Aprendizado é baseado em construção e desconstrução. Você não chega e ensina tudo de uma vez, ou simplesmente divide o conhecimento em partes iguais e passa uma por uma. Você primeiro ensina uma coisa de um jeito, e depois ensina que, na verdade, a coisa não era bem assim. Você simplifica o mundo primeiro, e depois complica. Você primeiro ensina uma regra como inquestionável, e depois pede para questionarem a regra. Eu espero que, ao longo da carreira, vocês sempre questionem o que aprenderem. O questionamento fortalece as ideias e amadurece as pessoas.

Idealismo. Idealismo tem vez e pragmatismo, também. Meu perfil sempre foi mais o do idealista, que tenta otimizar tudo para que se aproxime do ideal. Isso toma tempo, muito tempo. Ajuda em muitos casos, e atrapalha em muitos outros. Essa não é a solução para todos os problemas; às vezes ela é o problema. Tem hora para tudo na vida. Aliás, na hora de ser idealista, “Que tal olhar para dentro de si mesmo? É aí que começa a revolução”, como diz um filósofo chamado Eduardo Marinho (sugestão: procurem esse cara no YouTube).

Divergência. Diferentes visões de mundo devem ser respeitadas, mesmo quando você discorda delas. E trabalhos devem ser valorizados, principalmente aqueles que não é a gente que faz. Quando um projeto é longo e com muita gente envolvida, você não entende tudo plenamente nem concorda com todas as opiniões. E também não enxerga completamente o alcance e a importância dos trabalhos que você não faz. Para vocês estarem aqui hoje se formando, muita gente suou a camisa. É fácil perceber o esforço do aluno e do professor. Mas tem muita gente além deles. Eu gosto muito de dar aula e sempre dei muita importância para essa parte. Falar que o seu próprio trabalho é importante é muito fácil. Mas será que a gente dá a mesma importância para os outros tipos de trabalho? Aqueles mais burocráticos, aqueles de formiguinha, de longo prazo… Aqueles escondidos nos bastidores, aqueles às vezes de muita responsabilidade e pouco IBOPE? É muito fácil dizer que todo trabalho é importante, mas praticar essa ideia é um exercício diário. Eu achava que eu sabia reconhecer essas coisas, mas eu estava enganado. Aprender a conviver bem, superando nossos próprios preconceitos e arrogâncias, é um dos objetivos de estarmos juntos.

Em todas as áreas, existem discussões do tipo: teoria ou prática, tradicional ou inovador, aula expositiva ou participativa, Java ou C# ou Ruby ou Python ou JavaScript… Qual escolher? Minha sugestão é você trocar os conectivos ‘ou’ por ‘e’: conheça todas as opções e adote a que for melhor em cada situação. “Ah, mas eu não sei qual é a melhor!”. Então, tente! Experimente! Sonhar ou fazer? Espero que, ao saírem daqui, vocês continuem sempre sonhando e sempre fazendo. Como diz o médico Lair Ribeiro, uma pessoa começa a morrer quando suas lembranças ficam mais fortes do que os seus sonhos.

“Existem jovens de 80 e tantos anos / E também velhos de apenas 26 / Porque velhice não significa nada / E a juventude volta sempre outra vez”, já dizia Chaves e a vizinhança. A juventude volta sempre, desde a gente fique esperto, porque a vida nos pressiona a envelhecer. Para ser jovem e feliz, tenha sempre mais sonhos do que lembranças, mais projetos do que realizações, mais coisas para aprender do que para ensinar.

Enfim, parabenizo os formandos pela conquista e agradeço a todos os colegas pelo trabalho e pela amizade. Passamos momentos muito bons e memoráveis neste Instituto Federal. Um agradecimento especial à minha esposa, Vivian, que sempre conversou muito comigo, me apoiando, me aguentando nos momentos difíceis e que em breve trará o maior presente da minha vida até hoje. Muito obrigado!

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