Homenzinho palito falando ao público em frente a uma tela projetada

Estrangeirismos em palestras

Você já foi a um evento de uma área diferente da sua, talvez acompanhando algum familiar ou amigo?

Se você foi, imagino que você viu algumas palestras sem entender nada, viu algumas entendendo alguma coisa e viu uma ou outra entendendo quase tudo.

Será, mesmo, possível? Entender quase tudo, sendo de outra área?

Com certeza! A pergunta a ser feita é outra, da parte do palestrante: estou falando com clareza?

Estou passando conhecimento de forma acessível? Estou explicando bem? Ou estou complicando? Estou exigindo somente conhecimentos necessários para entender o conteúdo? Ou estou exigindo conhecimentos desnecessários por causa da forma? Estou falando de um jeito compreensível pelo público em geral, ou estou usando termos e exemplos que apenas um grupo restrito entende?

Se você se lembrar de palestras de outras áreas que você já viu, é bem provável que as mais compreensíveis foram exatamente as que usaram palavras familiares, evitando termos técnicos em excesso, piadas internas etc. Ou que, pelo menos, deram uma pequena definição desses termos.

Recentemente, no TDC2015 em São Paulo, vi uma palestra que falava sobre o processo de desenvolvimento de software de uma equipe. Em algum momento, o palestrante começou a falar em “chipar isso”, “chipar aquilo”, “o momento de chipar”. Aí eu fiquei pensando: “O que será que esse pessoal está fazendo com chips no projeto deles?”. Comecei a achar que eu não estava entendendo nada da palestra. Depois de uns bons minutos, finalmente me toquei: não era “chipar” que ele estava falando, e, sim, “shipar”!

Tapa na testa.

Shipar… Aportuguesamento horroroso de ship, que originalmente tem a ver com navios e que, como verbo, significa enviar, despachar. É como quando você faz compras em um site internacional e ele diz: “Ships in 10 business days“. Bom, aí, sim, fez sentido! To ship software. Já tinha ouvido essa expressão e sabia o significado: entregar software.

Aí eu fiquei pensando: por que o cara não falou simplesmente “ENTREGAR”? Meu Deus, teria sido mais fácil para todo mundo! Quantas pessoas perderam a oportunidade de levar para casa o conhecimento que ele tinha para passar por causa de uma besteira dessas? Eu entendo bem inglês e tenho alguns anos de experiência na área; se eu demorei um tempão para entender do que ele estava falando, fico imaginando quem está começando ou tem dificuldade com inglês.

Esse é apenas um caso extremo. Existem diversas formas de estrangeirismos. Algumas são mais aceitas e amplamente conhecidas (como software e iceberg); outras são mais obscuras.

Uma expressão usada com certa frequência em discursos é “hors concours” (eu nem sabia que era assim que se escrevia). É o tal do “ó concur”, diretamente do francês. Significa “pessoa ou coisa muito notável em sua categoria”; “o melhor de todos”. Então, em vez de dizer “Fulano é hors concours“, não seria mais fácil dizer “Fulano é o melhor” e pronto?

E que tal esta outra, desta vez, do latim: “sine qua non“. Condição sine qua non isso, condição sine qua non aquilo. Quem é jurista talvez aprenda o significado disso já no início da faculdade. Quem não é talvez não tenha a menor ideia do que se está falando. A tradução literal é “sem a qual não”. Ou seja: uma “condição sine qua non alguma coisa” é simplesmente uma condição necessária para essa coisa acontecer. Nâo seria bem mais fácil dizer desse jeito, “condição necessária”?

Eu só sei os significados dessas duas porque acabei pesquisando e descobrindo. Mas nem sempre você tem a possibilidade de fazer isso na exata hora em que precisa. Não seria mais fácil o palestrante tornar seu conteúdo mais acessível?

A regra geral é muito simples: evite estrangeirismos desnecessários em suas palestras. Se você não gosta de ouvir termos misterioso no discurso dos outros (inclua aí médicos, advogados e políticos), comece eliminando os seus próprios termos misteriosos dos seus próprios discursos. Para você, eles podem ser óbvios, mas, para os outros, podem não ser.

Dizer automaticamente “Ah, mas isso aqui não dá para mudar/traduzir!”, sem nem tentar, é uma ótima desculpa para não procurar ser mais claro. Clareza consome tempo. Simplicidade dá trabalho. Exige buscas no Google, exige tentativa e erro, exige vocabulário e disposição para ampliá-lo. Evite se prender a formas. Às vezes, basta mudar uma palavra usual no seu meio e desconhecida fora dele para aumentar o acesso dos ouvintes.

Afinal, o foco da comunicação está em você ou no seu interlocutor?

Uma palestra muito boa sobre esse assunto: Diálogo e Entendimento Mútuo.

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Menino pensando nele mesmo quando for grande

O que você quer ser quando crescer?

Muita gente vê televisão, acha sensacional e pensa: “Eu quero ser ator!”. Muita gente vê um pianista tocando e pensa “Eu quero ser músico!”.

Mais recentemente, entrou em moda a profissão de computeiro. Com isso, muita gente que gosta de computador, celular e/ou tablet andou pensando “Eu quero ser programador!”.

Talvez tão velho quanto o mundo, esse fascínio pela profissão alheia é natural, até certo ponto. Espelhamo-nos em alguém ou alguma coisa.

Porém, vale a pena lembrar que, quando você vê um profissional atuando, você está vendo apenas a ponta do iceberg. Para ele conseguir fazer aquilo que ele está fazendo agora, do jeito como ele está fazendo agora, provavelmente ele passou muitas manhãs, tardes e noites de sua vida estudando e praticando. Se você presenciar um momento de estudo de um músico experiente, talvez até ache legal ouvir o que ele toca. Agora, experimente ouvir um músico iniciante estudando. Em geral, tende a ser horrível! Notas falhando, falta de ritmo, de dinâmica… É um longo caminho até a proficiência, e esse caminho pode ser agradável ou desagradável (normalmente, é uma mistura dos dois).

Na hora de escolher uma profissão, não adianta só ver o que a pessoa faz e achar legal. Meu pai costuma dizer que você deve observar o tipo de vida que a pessoa leva. O que faz um músico? No palco, ele toca peças completas, bonitas etc. Em casa, ele estuda e pratica, diariamente. Além disso, é possível que ele tenha que buscar trabalho continuamente, já que poucos músicos têm contrato fixo de trabalho. Se você gostar de tocar, e também gostar de estudar e praticar música, e também gostar dessa busca por trabalho, beleza! Talvez você goste dessa carreira. Se não, se você gostar apenas da ideia de tocar uma peça completa e não gostar do resto, esquece! O pacote vem completo, não tem muito como ficar escolhendo só as partes interessantes.

Um desenvolvedor de software não faz apenas o tablet falar, mostrar luzinhas coloridas e facilitar a vida de milhões de pessoas (eu até tenho dúvidas sobre essa última parte). Ele gasta boa parte do seu tempo escrevendo caracteres preto-e-verde num terminal, que muitos considerariam sem graça. Ele gasta boa parte do seu tempo fazendo uma coisa de outro mundo: pensando. Você não vê ele fazendo isso. Vendo de fora, não dá para ter muita noção de quanto esforço mental é necessário para chegar-se àquelas simples e visuais luzinhas.

O mesmo ocorre com o escritor, o cabeleireiro, o executivo, o faxineiro, o investidor, o governante… Você já passou pela situação em que alguém falou mal da sua profissão? Você já ouviu alguém achando que sabe como é viver a sua vida, e, na verdade, não sabia nada? Então… Evite cair no mesmo erro. Cuide para respeitar a vida e a profissão alheia.

Aula de TDD

Quais exercícios para estudar TDD? (ou: Minicurso de TDD no Open Sanca)

Quais exercícios são bons para começar a estudar TDD? Essa dúvida paira na cabeça de muitos estudantes e professores!

Se você for professor, eu sugiro fortemente: escolha alguns exercícios, resolva-os você mesmo e veja o que acha. Só mesmo resolvendo um exercício é que você consegue ter noção de se ele é apropriado ou não para passar aos alunos!

No dia 17/10/2015, ministrei um minicurso de TDD num encontro do grupo Open Sanca, em São Carlos-SP. Foi muito legal! Dificilmente, pessoas que não conhecem TDD se dão bem com a técnica nas primeiras tentativas. Mas, dessa vez, senti que o pessoal realmente conseguiu isso nas apenas 4h de minicurso.

Resolução de problema de TDD em grupo
Pessoal firme no dojô

Os exercícios que eu preparei foram estes e fizemos alguns poucos dessa lista. Normalmente, não sou muito fã de exercícios viajados e pouco práticos, como o FizzBuzz. Mas, recentemente, concluí que esse tipo de exercício pode ajudar a entender a mecânica do TDD, porque é fácil manter o foco no processo, em vez de no problema. Ajuda muito quando o estudante é mais iniciante. Não foi o caso desse encontro, em que a maioria das pessoas já tinha experiência profissional com desenvolvimento de software. Por isso, esse exercício não foi necessário. Mas essa questão desperta a seguinte reflexão:

Mecânica ou motivação: qual é mais importante, especialmente em um minicurso? Esse é um grande dilema ao ensinar TDD. A técnica é muito legal para problemas complexos, mas também é muito estranha à primeira vista. Para facilitar o entendimento da mecânica (ex: ciclo vermelho-verde-refatora), o professor normalmente passa um problema simples (ex: FizzBuzz). E aí o uso de TDD parece totalmente descabido, porque o problema é muito simples… Em outras palavras, ou você motiva bem, ou você facilita o entendimento da mecânica. É preciso fazer a balança pender para um dos lados. Com o tempo e mais exemplos, inverte-se a balança algumas vezes e aí o pessoal consegue obter as duas coisas.

Para você determinar que exercício é mais adequado, faça-se as seguintes perguntas:

  • Qual é o público-alvo? Alguém experiente em programação? Alguém iniciante?
  • É mais importante ensinar a mecânica (entender como funciona) ou motivar o estudo (apresentar os benefícios)?
  • É mais importante ser realista e detalhado, ou didático e menos detalhado?
  • Quanto tempo se tem disponível? 1h? 2h? 4h?

O exercício do intervalo eu recomendo ser feito quando houver, no mínimo, 2h disponíveis. Ele parece simples, mas não é, exige muito raciocínio. O da busca incremental eu acho bem elucidativo e bem realista. Porém, adote-o somente se quem for resolvê-lo tiver bastante familiaridade com manipulação de listas. Senão, a pessoa pode se perder (o oposto do objetivo do TDD!). O fraseador de itens é realista (tirei de um projeto real de que participei), porém tem vários pequenos detalhes, podendo complicar o entendimento e/ou a implementação.

Resumindo, não tem segredo! Determine suas prioridades, experimente os exercícios que achar mais interessantes e mande ver!

Você pode consultar o material do minicurso aqui. Fique à vontade para usá-lo como quiser, peço apenas a gentileza de dar os devidos créditos.

E você? Já teve dúvidas quanto ao estudo de TDD? Quais foram suas experiências?

Um simples início

Olá a todos!

Este é o primeiro post de um novo blog. Ele foi criado rapidamente, sem muito questionamento (só um pouco!). Vi que o endereço awvalenti.wordpress.com estava disponível e fui criando.

Na vida, nem tudo precisa de muito planejamento. Algumas decisões são perfeitamente reversíveis. Se eu não gostar muito do tema do blog, posso alterar. Se eu não gostar muito do título, posso alterar. Se eu estiver sem ideias boas para escrever no momento, posso fazer isso depois. Logo, vamos colocar logo algo no ar e depois ir melhorando!

Fique à vontade para deixar seus comentários.

Um abraço e espero que você tenha um dia maravilhoso!

André